terça-feira, 6 de abril de 2010

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

SETE ANOS
A idade de sete anos não é exceção à regra de que cada novo período etário traz acentuadas mudanças em comportamento (assim como muitas novas realizações). A criança de seis anos é tipicamente atrevida e agressiva, pronta para aventura nova, falsamente segura de si. Enfrenta situações novas diretamente. Houve encrenca no recreio? Ela fica e briga. Alguém tentou tomar alguma coisa dela? Ela luta pelo que é seu.
As coisas são muito, mas muito diferentes aos sete anos. Embora aos sete anos, como em qualquer outra idade, haja momentos de exuberância, segurança e felicidade, é uma idade mais retraída. A criança de sete anos em muitos sentidos acalmou-se e é mais fácil viver com ela. Mas ela tem mais probabilidade de queixar-se do que de rejubilar-se. Tende mais a retirar-se de cena resmungando do que a ficar e exigir o que é seu. Tem sido, com justiça, descrita como taciturna, melancólica e caprichosa.
A criança de sete anos não apenas se retira de combate, mas parece naturalmente retirar-se de outras pessoas. Gosta de estar sozinha. Quer um quarto só para si, onde possa retirar-se e proteger suas coisas. Gosta de observar, de ouvir, de ficar na orla de qualquer cena. É grande telespectador e ouvinte de rádio, possivelmente um grande leitor. É quase como se estivesse construindo sua noção do eu, olhando, observando, ruminando.
Mas suas mãos são também muito atarefadas, tocando, explorando, tateando tudo aquilo com que entram em contato. Ela tem um desordenado amor por lápis e prefere o claro e definido traçado do crayon colorido. Seu intelecto está em ascendência. Ela é mais discriminativa e refinada no que vê e no que faz.
Muitas vezes, exige excessivamente de si própria. Tem consciência da tarefa, mas nem sempre é capaz de completá-la. Tende a continuar por muito tempo e depois tornar-se exausta de repente. Precisa ser ajudada para definir pontos de parada. Tem seus dias bons e seus dias maus; os dias de alta aprendizagem e os dias em que esquece tudo. Uma professora consciente modificará seu alimento intelectual nesses diferentes dias. E uma mãe sensata manterá o filho em casa se o dia mau dele começa assim que sai da cama, como sempre acontece.
Por um breve período, a vida pode, para algumas dessas crianças, ser colocada decididamente em tom menor. Nesses tempos, a criança de sete anos tende a sentir que as pessoas são contra ela, não gostam dela, estão perseguindo-a. As outras crianças trapaceiam; a professora persegue-a na escola. Mesmo seus pais são injustos. Embora só algumas cheguem ao ponto de imaginar que são adotivas, essa fantasia ocorre de vez em quando e tipifica a atitude de “ninguém gosta de mim” da criança de sete anos. Se sua família é muito “ruim” com ela, ela pode ameaçar fugir. Não devido à expansiva exuberância que, às vezes, arrasta a criança de quatro anos para o mundo, mas simplesmente para escapar da intolerável perseguição que pensa ser seu destino.
Mesmo a expressão facial de algumas crianças de sete anos pode revelar sua insatisfação com a vida. Seus lábios podem curvar-se para baixo em uma permanente expressão de amuo.
Embora a criança de sete anos tenda a ser menos feliz e satisfeita do que seus pais gostariam que fosse, seus dias bons aumentam firmemente à medida que se torna mais idosa, seu cansaço diminui e ela, aos oito anos de idade, estará pronta para a maior parte das coisas.
Os pais da criança de sete anos precisam seguir um rumo delicado entre mostrar razoável simpatia pelas numerosas queixas que ela apresenta e, apesar disso, não levar essas queixas muito a sério (embora dores de cabeça precisem ser investigadas). A professora provavelmente não é tão injusta quanto a criança diz; as outras crianças não são tão atrozes; os irmãos e a irmãs não são tão maldosos..
OITO ANOS
A criança de sete anos retira-se do mundo, mas a de oito, sai para enfrentá-lo. Nada é difícil demais para a criança de oito anos, em sua própria avaliação. Nenhuma tarefa é tão formidável a ponto de não poder ser empreendida. Nenhuma distância é grande demais para ser coberta por ela. De fato, para a criança mediana de oito anos, o novo e difícil é um excitante desafio que ela tende a enfrentar com grande animação. Com frequência, ela superestima sua própria capacidade de enfrentar esse desafio.
Nem sempre leva até o fim suas atividades. O impulso de energia e entusiasmo com que empreende cada nova tarefa pode ser seguido por malogro, desencorajamento e mesmo lágrimas se seu malogro é mencionado. Mas isso não a impedirá de começar alguma outra coisa nova – no dia seguinte.
Descrevemos muitas vezes a criança de oito anos como expansiva e veloz. Ela parece achar difícil ficar fora de contato com qualquer parte de seu ambiente. Por isso está constantemente atarefada e ativa, constantemente gozando de novas experiências, constantemente experimentando novas coisas, fazendo novos amigos.
Em todos os sentidos, a criança típica de oito anos percorre muito terreno. Com sua característica velocidade, percorre-o rapidamente. Mas, infelizmente, com seus recém-aumentados poderes de avaliação, ela pode reconhecer seus fracassos excessivamente freqüentes. Então, lágrimas e autodepreciação! “Eu sempre faço as coisas errado!” “Nunca faço nada certo!” Com sua tendência a dramatizar tudo, às vezes desconfiamos que ela, em certo sentido, se regozija até mesmo com fracassos ou, pelo menos, faz uso deles.
Apesar de todo seu atrevimento e jactância, ela é muito mais sensível do que se poderia esperar. Precisa de proteção tanto para não tentar coisas demais como para não ter excessiva autocrítica quando encontra o fracasso.
Por isso, quando seu bom começo é seguido, como frequentemente acontece, por um mau final, ajudem-na a não ter um sentimento de fracasso grande demais. Planejem com ela uma época futura, quando se sairá melhor ou não escolherá para si própria uma tarefa quase impossível.
A criança de sete anos era muito preocupada consigo mesma e com a maneira com a qual outras pessoas a tratavam. A de oito anos vai mais longe do que isso em seus entendimentos com os outros. Agora, ela está interessada não apenas na maneira de as outras pessoas a tratarem, mas em seu relacionamento com os outros. Está pronta a ter - e deseja ter - uma boa relação bilateral. Além disso, o que a preocupa não é só aquilo que as pessoas fazem, mas também aquilo que pensam. Tem mais para dar às pessoas do que tinha antes, mas também espera mais delas. Com a mãe, especialmente, a criança de oito anos deseja e reclama um relacionamento compreensivo e estreito.
A criança de oito anos, em seu universo expansivo, dá-nos mais do que uma sugestão da espécie de pessoa que será mais tarde.


Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

CINCO ANOS
A idade de cinco anos assinala, em muitas crianças, um tempo de extremo e delicioso equilíbrio. “Ele é um anjo”, dizem muitas mães de meninos de cinco anos, com respeito e admiração.
“Ele é quase bom demais!”, dizem outras, preocupadas. Os cinco anos, de fato, são uma boa idade. Ficou para trás a exuberância sem limites dos quatro anos. Ficaram para trás a incerteza e imprevisibilidade dos quatro anos e meio. A criança dos cinco anos tende a ser segura, estável e bem ajustada. Segura dentro de si própria, ela é calma, amistosa e não muito exigente em suas relações com os outros.
Parece segura e capaz, porque se contenta em ficar dentro ou perto da base doméstica. Parece sentir a necessidade de lançar-se ao desconhecido, de tentar o que é difícil demais para ela. Pelo contrário, contenta-se em viver aqui e agora. Tenta só o que é capaz de realizar e, por isso, realiza aquilo que tenta. A mãe é o centro de seu mundo e gosta de estar perto dela. Gosta de fazer coisas com ela e para ela, gosta de obedecer às suas ordens. Gosta de obedecer instruções e de obter permissão. Ser um bom menino é não apenas sua intenção, mas é algo que geralmente consegue realizar. Por isso, a criança sente-se satisfeita consigo mesma, e os outros, com ela.
Muitos pais gostariam de ter de volta a dócil criança de cinco anos, quando ocorre o costumeiro rompimento de comportamento dos 5 e meio para os 6 anos e quando seu “bom” filhinho de cinco anos se torna uma criança de seis anos frequentemente muito menos do que boa.
Olhar assim para trás é, naturalmente, inútil. É como desejar que o filho de dezoito meses, quando anda pela sala muito bruscamente e pega coisas demais, estivesse de novo no estágio anterior à capacidade de engatinhar. A idade de cinco anos é, certamente, agradável para todos enquanto dura. Mas a criança em crescimento precisa de muito mais do que o equipamento de cinco anos para enfrentar o mundo. Precisa ramificar-se. la muitas vezes penetra em áreas que causam grandes dificuldades para todos os interessados. Essa é a dificuldade dos seis anos.
SEIS ANOS
A esta altura, um certo ritmo de crescimento talvez se tenha tornado evidente para vocês. Vocês terão notado que, enquanto a criança cresce, existe uma tendência de idades em que parece estar com equilíbrio relativamente bom – feliz, complacente e segura – alternarem-se com idades nas quais esse equilíbrio se rompe. Nas idades de desequilíbrio, a criança está-se lançando para fora, ou para dentro, tentando coisas novas, querendo mais, achando difícil adaptar-se aos outros, porque suas próprias exigências são muito fortes.
Assim, a tranquila criança de cinco anos é seguida pela tumultuada criança de seis anos. Na verdade, o rompimento começa por volta dos cinco anos e meio. Aos seis anos e meio, as coisas em geral já se abrandaram de novo. Mas durante um período de cerca de seis meses, por volta dos seis anos de idade, muitos pais acham extremamente difícil lidar com o filho.
O comportamento nesse tempo faz lembrar, em muitos sentidos, o que descrevemos como tipificador da criança de dois anos e meio. A criança é, antes de tudo, violentamente emocional. E, em suas emoções, funciona em extremos opostos. Ama em um minuto, odeia no minuto seguinte. Assim, pode dizer: “Eu gosto de você, mamãe”, acompanhando sua declaração com um grande abraço. No minuto seguinte, explode: “Eu odeio você!”. Essa explosão pode ser provocada por nada pior, da parte de sua mãe, do que tirar algum de seus pertences do lugar apropriado.
Acontece que a mãe não é mais o centro de seu mundo, como era quando a criança tinha apenas cinco anos. Agora “ela” quer ser o centro de seu mundo, embora não tenha, ainda, adquirido uma noção segura de si própria. Quer ficar em primeiro lugar, quer ser a mais amada, ter o máximo de tudo. A mãe foi removida para segundo lugar. E, agora, a criança joga tudo em cima dela. De tudo quanto sai errado, a mãe leva a culpa.
E muita coisa sai errada. Isso porque a criança de seis anos, como a de dois anos e meio, é muito exigente em relação aos outros e muito rígida em suas exigências. Quer que as coisas sejam exatamente assim. Não é capaz de adaptar-se. São os outros que devem adaptar-se a ela.
Além disso, tende a ser extremamente negativa em sua reação aos outros. O fato de lhe terem pedido para fazer alguma coisa é, a seus olhos, razão suficiente para recusar fazê-la.
A criança de seis anos é, porém, deliciosa em seu vigor, em sua energia, em sua disposição para qualquer coisa nova. É uma idade expansiva e a criança de seis anos está preparada para fazer quase qualquer coisa. Seu apetite por experiência nova é prodigioso.
Mas isso a leva a querer tudo de tudo. É muito difícil para ela escolher entre duas alternativas, porque deseja ambas. É também difícil para ela aceitar críticas, culpa e punição. Ela tem que estar certa. Ela tem que ser elogiada. Ela tem que vencer. É tão rígida e inadaptável em suas relações com outros quanto era aos dois anos e meio. As coisas têm de ser feitas à sua maneira. Os outros precisam ceder a ela. Se está ganhando, tudo está muito bem. Se os outros ganham, há lágrimas e acusações de que os outros estão roubando!
Assim, quando tudo corre bem, a criança pode ser cordial, entusiástica, zelosa, pronta para tudo. Mas, se as coisas correm mal, há lágrimas e acessos de raiva.
É difícil contornar essa idade na vida da criança e nem devemos desejar fazê-lo. Podemos torná-la um pouco mais fácil para criança e para nós, respeitando o fato de que ela está tendo um tempo difícil dentro de si própria, assim como em suas relações com os outros. Usem técnicas quando puderem. Contornem o maior número possível de incidentes infelizes. Introduzam pessoas de fora para ajudar a realizar as rotinas cotidianas quando puderem, pois a criança mostra-se pior com a sua mãe.

Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

QUATRO ANOS
Para cada idade, parece possível descobrir uma palavra ou palavras-chave que descrevem a estrutura de comportamento nesse tempo. Se pudermos descobrir e lembrar essas palavras, isso muitas vezes nos ajudará tremendamente a compreender e apreciar a criança dessa idade.
Para a criança de quatro anos, as palavras-chave estão “fora dos limites”. Se formos capazes de lembrar essas palavras e sorrir com simpatia quando as dissermos, isso poderá ser de imensurável utilidade no sentido de ajudar-nos a lidar com quaisquer crianças de quatro anos que cruzem nosso caminho. Porque a criança de quatro anos está, quase mais que a criança de qualquer outra idade, fora dos limites em quase todas as direções.
Assim, ela está fora dos limites no sentido motor. Bate, dá pontapés, joga pedras. Quebra coisas. Foge correndo. Está fora, fora dos limites emocionalmente: risadas altas e tolas alternam-se com períodos de raiva. “Você me deixa louca”, diz ela à mãe. Verbalmente, está quase mais fora dos limites que em qualquer outro aspecto. A linguagem de uma criança típica de quatro anos pode quase certamente chocar qualquer pessoa, exceto, talvez, uma calejada professora de escola maternal. Palavrões (onde ela terá ouvido esse linguajar horrível?) são predominantes. Palavras de banheiro, de eliminação, entram em uso comum. A criança não apenas as emprega incidentalmente nas situações poderiam ser apropriadas, mas pode demorar-se e fazer rimas com elas – acompanhando-as com muitas risadas tolas que parecem mostrar como aprecia plenamente sua impropriedade.
Em relações interpessoais, a criança está tão fora dos limites quanto em tudo o mais. Gosta de desafiar as ordens dos pais. De fato, parece encontrar prazer em desafiar o mais que pode. Mesmo punição severa parece ter pouco efeito corretivo. Uma terrível dureza parece tê-la dominado – ela se pavoneia, pragueja, se vangloria e desafia.
Sua imaginação também parece não ter, nessa época, limites “razoáveis”. A recém-descoberta fuga por meio da imaginação, que muitas vezes começa aos três anos e meio, pode estar em um ponto alto para o encontro de companheiros imaginários. Isso, a maioria dos pais aceita bastante bem. As gabolices da criança de quatro anos, particularmente quando parecem ao adulto meras mentiras, são menos aceitas.
No entanto, para a criança mediana de quatro anos, a linha entre fato e ficção é muito fina e flexível. Ela pode não estar realmente contando mentiras. Simplesmente é mais interessante daquele jeito e a criança pode vir a acreditar em suas próprias fantasias, que se tornam reais para ela.
Cabe a vocês, como mãe, pai ou professor, decidir até que ponto devem ser firmes em relação a todos esses comportamentos fora dos limites. Sem dúvida, existem limites.
Mesmo a situação social muito simples de um grupo de escola maternal exige certo refreamento da exuberância da criança de quatro anos. A vida no lar talvez exija mais ainda. Vocês precisam, inevitavelmente, usar de muita firmeza ao lidar com a criança de quatro anos. Mas se sentirão menos desesperados e menos encolerizados, quando lidarem com ela, se puderem ter em mente que comportar-se de maneira fora dos limites é não apenas uma etapa quase que inevitável, mas também muito necessária de desenvolvimento.
A criança de três ano e meio era, certamente, insegura demais para propósitos práticos. A de quatro, parece a maioria de nós ostensivamente segura e petulante, confiantes em sua própria capacidade. A natureza parece ter essa maneira de ir a extremos opostos à medida que a criança se desenvolve. Com o tempo, as oscilações do pêndulo se tornam menos extremas e fixam-se em uma escala mais estreita à medida em que a personalidade básica do indivíduo é menos alterada pelas mudanças da idade.
A criança de quatro anos precisa ter permissão para submeter-se a prova. Precisa ter permissão para sair à rua com sua bicicleta em ambas as direções e com limites expansivos. Esperamos que haja vizinhos que ela possa visitar, que a recebam e comuniquem a visita à mãe. Ela precisa ter permissão para correr à frente pela calçada e esperar na esquina seguinte. É surpreendentemente responsiva se lhe for permitida alguma expansão inicial. As rédeas de controle podem ser mantidas frouxas, mas há sempre aqueles momentos em que precisam ser puxadas para que se tornem curtas e firmes.

Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

TRÊS ANOS
As coisas se aquietam brevemente, aos três anos, para a maioria das crianças. A criança de dois anos e meio parece gostar de resistir. A de três, parece gostar de conformar-se. A criança típica de três anos usa a palavra “Sim” com tanta facilidade quanto usava antes a palavra “Não”.
Aos dois anos e meio, parecia ser só “tomar”. Aos três anos, a criança gosta tanto de dar quanto de tomar. Gosta de partilhar – tanto objetos como experiências. “Nós” é outra palavra que usa com frequência. Expressa sua atitude cooperativa e condescendente com pessoas e coisas que a cercam, talvez porque esteja em melhor equilíbrio consigo mesma. Não parece mais necessitada de proteção, de rituais, de fazer tudo da mesma maneira. Maior maturidade levou-a a sentir-se muito mais segura em suas relações com os outros.
Não apenas a necessidade de rituais passou, mas quase todos os outros aspectos do comportamento dos dois anos e meio, que criavam dificuldades para ela e para aqueles à sua volta, também parecem ter desaparecido ou, pelo menos, diminuído. A criança não é mais rígida, inflexível, dominadora, gananciosa. Não é mais necessário que tudo seja feito à sua maneira. Agora ela não pode apenas fazer as coisas à maneira dos outros, mas pode gostar de fazê-lo.
Pessoas são importantes para ela. Gosta de fazer amigos e, muitas vezes, mostra-se disposta a deixar um brinquedo ou um privilégio a fim de permanecer nas boas graças de outra pessoa – coisa de que era incapaz anteriormente.
A maior capacidade motora permite que rotinas cotidianas e outras atividades necessárias possam ser realizadas com dificuldade mínima. Permite, também, à criança desenvolver com sucesso atividades de brinquedo que antes a desorientavam e enraiveciam.
Mas, acima de tudo, sua maior capacidade na linguagem e seu interesse pela linguagem ajudam-na a ser uma deliciosa companheira, um interessante membro do grupo. Seu vocabulário e sua capacidade de usar linguagem aumentaram tremendamente na maioria dos casos. Sua própria apreciação da linguagem dos outros aumentou. Agora, ela não só pode ser entretida, como também entreter a si própria. Gosta de palavras novas que podem muitas vezes, atuar como magia no sentido de influenciá-la a comportar-se como desejamos. Palavras como “novo”, “diferente”, “grande”, “surpresa”, “secreto”, tudo sugere sua maior percepção no excitamento de novos horizontes. Palavras como “ajude”, “poderia”, “adivinhe”, são ativos motivadores para levá-la a realizar tarefas necessárias.
A criança de dois anos, frequentemente, parecia resistir apenas por uma questão de princípios. Era mais seguro. A de três anos avança positivamente para enfrentar cada nova aventura.
Temporariamente, aos três anos, muitas crianças chegam ao que a maioria dos pais e professores considera um delicioso estágio de equilíbrio. Os desejos da criança e sua capacidade de realizar tais desejos parecem, durante algum tempo, estar em equilíbrio notavelmente bom. As crianças de três anos, em sua maior parte, parecem estar bem satisfeitas consigo mesmas e com aqueles que a cercam, e o sentimento tende a ser recíproco. Parecem ainda, pelo menos no que mostra seu comportamento exterior, sentir-se seguras dentro de si.

TRÊS ANOS E MEIO

Aos três anos e meio, ocorre, em muitas crianças, uma tremenda mudança. É como se, a fim de passar do equilíbrio do estágio de três anos para aquele que é geralmente atingido aos cinco anos de idade, o comportamento da criança precisasse romper-se, soltar-se e atravessar uma fase de nova integração. Tudo isso chega ao que é, para muitas crianças aos três anos e meio de idade, um período de acentuada insegurança, desequilíbrio e incoordenação.
Por isso, a má ou nova coordenação pode expressar-se em qualquer dos terrenos de comportamento ou em todos eles. Pode expressar-se apenas temporariamente em algumas crianças, por período consideravelmente mais longo, e de maneira mais acentuada em outras crianças. É tão característica deste período etário determinado que, embora certos fatores ambientais possam exagerá-la, em muitos casos podemos, com razão, considerar que é causada somente por fatores de crescimento. Certos subprodutos do comportamento iniciados neste período, como gagueira, podem continuar por mais tempo do que deveriam dentro do curso de crescimento mais usual.
Por isso, vocês podem procurar incoordenação em qualquer dos terrenos do comportamento ou em todos eles. Incoordenação motora, por exemplo, pode expressar-se em tropeções, quedas, medo de altura. A criança que antes demonstra excelente coordenação motora pode passar por um período de extremo desequilíbrio motor.
As mãos, e mesmo o corpo todo, podem ser envolvidos. Assim, a criança cujos movimentos de mão e braço haviam sido até agora fortes e firmes pode, de repente, desenhar com linha fina e oscilante: pode adquirir um tremor de mão perceptível. A linguagem pode ser envolvida. Gagueira, muitas vezes, aparece em crianças que nunca antes haviam gaguejado. Olhos e ouvidos podem ser envolvidos. Pais muitas vezes ficam preocupados com o estrabismo temporário (ou mais persistente) que surge nesse tempo. A criança talvez se queixe, dizendo que não vê ou que não ouve. As descargas emocionais são, com frequência, exageradas. Assim, a criança pode piscar os olhos, morder as unhas, beliscar o nariz, exibir tiques faciais ou outros, masturbar-se, chupar o dedo excessivamente. E, por fim, junto com dificuldades motoras e verbais, muitas vezes sobrevêm tremendas dificuldades nas reações com outras pessoas. A criança de três anos e meio expressa sua segurança emocional chorando, lamentando-se e perguntando-se frequentemente. Ou pode exigir que toda a atenção se focalize nela e, assim, tornar-se extremamente ciumenta de qualquer atenção prestada por membros da família entre si. Com seus amigos, também ela mostra considerável segurança e grande exigência de sua atenção exclusiva. Os extremos emocionais que expressa (muito acanhada/expansiva) também fazem dela um participante inseguro de qualquer situação social.
Se o adulto seguro sabe de tudo isso, pode ajudar muito. Antes de tudo, pode impedir que se culpem vários aspectos do ambiente. Pode estimulá-las a melhorar o ambiente, e pode ajudar a dar-lhes paciência para demonstrar pela criança a afeição adicional, a compreensão adicional de que ela tão desesperadamente precisa nessa idade.
Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

DOIS ANOS
O comportamento da criança aos dois anos de idade é muito mais bem organizado do que anteriormente, do ponto de vista do adulto, a ponto de às vezes cairmos na cilada de esperar uma firme melhora daqui para diante e sermos, assim, infelizmente surpreendidos quando as costumeiras dificuldades dos dois anos e meio se tornam aparentes.
Seja como for, independentemente do que possa vir depois, aqui nos dois anos ocorre um breve período de folga para a criança, assim como para a mãe. Isso porque, na maioria das crianças de dois anos, em comparação com as idades que os precedem e seguem imediatamente, essa é uma idade de acentuado equilíbrio.
As coisas são muito mais fáceis no que se refere a quase todos os terrenos de comportamento. Maior maturidade e uma alta disposição de fazer o que é capaz e não tentar esforçar-se demais para fazer as coisas de que não é capaz explicam em grande parte essa maior tranquilidade.
A criança de dois anos é muito mais segura de si no sentido motor do que era aos dezoito meses. Tem menos probabilidade de cair. Corre e sobe com mais segurança. Por isso, não precisa mais preocupar-se tanto em manter seu equilíbrio e em escorar-se, podendo assim voltar a sua atenção para outras coisas. Ademais, o adulto não precisa ficar muito vigilante para protegê-la.
É também mais segura de si no sentido da linguagem. Não só compreende agora parte surpreendente do que lhe é dito, mas a elas próprias podem em geral, usar a linguagem com notável eficiência.
Ser capaz de tornar suas necessidades conhecidas e ser compreendida pelos outros alivia grande parte da furiosa exasperação que sentia antes, quando só podia apontar e chorar, na esperança de que alguém conhecedor de suas maneiras e necessidades estivesse nas proximidades para interpretar. Aos vinte e poucos meses, uma colher errada ou um babador errado podia ser causa de longo acesso de choro.
Emocionalmente, também, a criança acha a vida mais fácil. Suas exigências não são tão fortes quanto eram. Sua capacidade de esperar um minuto ou sofrer frustração ligeira ou temporária, se necessário, aumentou tremendamente.
Além disso, as pessoas têm para ela um significado maior do que antes. Ela gosta, às vezes, de agradar os outros; e é com frequência agradada pelos outros. Por isso, pode, como não podia aos dezoito meses, fazer ocasionalmente coisas apenas para agradar pessoas, pode ocasionalmente ter o desejo de compartilhar objetos com outras crianças. Poderá, às vezes, se assim for dirigida, mostrar-se disposta a encontrar brinquedos substitutos para essas outras crianças. Isso marca toda uma nova dimensão em relações sociais, diferente daquela de seis meses antes.
A criança de dois anos é, em numerosas ocasiões, amorosa e afetuosa. Pode ser calorosamente responsiva aos outros. Isto, justamente com sua maior afabilidade, faz dela, no lar ou na escola maternal, uma pessoa muito mais fácil de lidar do que quando era mais nova. Muita coisa pode ser dita e, frequentemente, é dita em louvor da criança de dois anos. Ela é uma companheira amorosa e uma verdadeira alegria em muitos lares.

Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

UM ANO
O primeiro aniversário é, sem dúvida, uma ocasião importante. Os usos populares requerem um bolo e uma vela acesa para celebrar o acontecimento; e, numa base cronológica, isso está perfeitamente certo. Mas, do ponto de vista biológico, esse aniversário não assinala uma época, porque o bebê de 1 ano passa por transformações de caráter desenvolvimento que não se completam antes da idade de 15 meses. E se pensarmos antes nele como sendo uma criança de 15 meses em via de elaboração, isso nos ajudará a compreender melhor as suas características de comportamento.
A criança de 1 ano é capaz de sentar-se sozinha, mas prefere engatinhar; é capaz de ir de um lado para outro, e de trepar, se arranjar um bom apoio para as mãos. Mas esses esquemas são quadrúpedes e não bípedes. Muitas crianças, já no final do primeiro ano, caminham sobre as mãos e as plantas dos pés, em lugar de o fazerem sobre as mãos e os joelhos. Essa é a última de duas dezenas de fases que a levam, finalmente, a assumir a postura ereta. Quando os pés se tornam o suporte, as mãos depressa se libertam.
Gosta mais de brincar com vários pequenos objetos do que só com um. Pega neles, um de cada vez, deixa-os cair e apanha-os de novo, um por um. Este comportamento, superficialmente visto, afigura-se-nos um tanto desordenado; mas é, realmente, muito ordenado, do ponto de vista do desenvolvimento natural, porque este esquema de ação de um-por-um é um esquema rudimentar de contagem. Não é tão complexo como um jogo propriamente de contar, mas é um pré-requisito do desenvolvimento.
O bebê tem outra razão para estes manejos de apanhar e deixar cair. Está exercitando as suas capacidades de largar, ainda imaturas, mas em vias de amadurecimento. Depois de ter aprendido como se agarra, tem agora de aprender como se larga. Se parece exagerar essa atividade é porque ainda não domina com precisão os seus músculos extensores. Daí a sua brusquidão de movimentos e também a sua incapacidade de largar na altura própria.
Mas se começarmos a jogar com ele um jogo simples de fazer rolar uma bola para lá e para cá, notaremos os significativos progressos que ele fez desde a idade de 40 semanas. Às 40 semanas, talvez encarasse as nossas propostas com reservas, observando os nossos movimentos, mas sem responder a eles. Em vez disso, segurava a bola e levava-a à boca ou devolvia-a com um gesto mal definido. Com a idade de 1 ano, a sua maneira de largar a bola constitui uma resposta; há nela um elemento de imitação voluntária e de iniciação. Mais um mês, larga a bola, dando-lhe um impulso ligeiro, mas bem definido – e tudo isso nos leva a pensar quanto esses simples esquemas são complicados e quantas coisas dependem da maturação.
As oportunidades de convívio social facilitam incontestavelmente a conformação dos esquemas e favorecem uma organização saudável das emoções que os acompanham. A criança de 1 ano gosta de ter uma plateia. É uma das razões porque ela é tantas vezes o centro do grupo familiar. Nessa qualidade, revela uma tendência teatral para repetir habilidades que fazem os outros rirem. Gosta dos aplausos. Isso pode ajudá-la a sentir a sua própria identidade, tal como aprendeu a sentir melhor a roupa, batendo fortemente com ela no tabuleiro. Está agora definindo uma distinção psicológica difícil – a diferença entre ela própria e os outros.
É suscetível a certas formas primitivas de afeto, ciúme, simpatia e necessidade. Pode ser sensível ao ritmo. Pode até manifestar um certo senso de humor, porque se ri de sons bruscos inesperados e de incongruidades espantosas. Pode ser um imitador prodigioso. Mostramo-lhes como se faz soar uma sineta e ela põe-se a agitá-la furiosamente, numa manifestação de reciprocidade social. Mas pára, de súbito, em meio de toda aquela animação, para empurrar o badalo com um dedo inquiridor! Isso não fazia parte da demonstração, mas faz parte da criança. Devemos estar gratos à natureza que a protegeu com esse grau de independência. Afinal, nós não pretendemos inundá-la de aculturação.
Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.

Características do comportamento da criança nas suas faixas etárias

SEIS MESES
O bebê de seis meses quer sentar-se e ver o que passa e quer, acima de tudo, apoderar-se de qualquer objeto (uma peça de roupa pode servir) que ele seja capaz de manusear, de levar à boca e de bater com ele. Não são necessários brinquedos caros e complicados. Nunca está ocioso, porque sente uma necessidade compulsiva de se servir das mãos para manusear e explorar.
Essa ânsia de manusear é tão grande que é capaz de brincar sozinho, feliz da vida, durante curtos períodos de tempo. Nessa altura, devemos deixá-lo entregue aos seus planos. É característico dele ser tão independente como sociável. Irá manifestar uma independência análoga, em um nível mais elevado, quando estiver na fase de andar daqui para ali, aos 18 meses.
O bebê de seis meses apresenta uma mistura de versatilidade e de incapacidade. É largamente superior ao bebê de 16 semanas no conjunto dos olhos e das mãos; mas encontra-se ainda à beira das capacidades que virão a amadurecer durante o resto do seu primeiro ano. Está perto de se sentar sozinho; quando chegar a 1 ano, pôr-se-á, sozinho, de pé. É capaz de segurar dois objetos, um em cada mão; a seu tempo, será capaz de os juntar. Vocaliza grande diversidade de vogais e consoantes que em breve ganharão o estatuto de palavras. Através de incessantes manuseamentos e de levar à boca um grande número de objetos, adquire um cabedal de percepções que fazem-no sentir-se mais à vontade no seu ambiente físico. Acumula também um tesouro de percepções sociais; interpreta as expressões faciais, as atitudes posturais e as idas e vindas da rotina doméstica. Estas percepções sociais não são ainda muito complexas, mas são apuradas; são esquematizadas; e são essenciais ao continuado desenvolvimento da sua personalidade.
Nesta idade, as capacidades da criança acham-se relativamente equilibradas. Os esquemas de comportamento estão bem focados; os seus interesses são equilibrados; é, ao mesmo tempo, independente e sociável; alterna, com facilidade, uma atividade espontânea relacionada consigo mesmo e uma atividade de relações sociais. Gosta de ficar sentado (com apoio), mas sente-se igualmente bem deitado de costas. Gosta de manusear brinquedos, mas qualquer objeto lhe serve; e governa-se mesmo sem objeto nenhum, pois, então, entretém-se deslocando a mão dentro do seu campo de visão, pelo simples prazer (e valor educacional, também) de vê-la mover-se. Tudo considerado, as suas características de comportamento contrabalançam-se bem. Mas as tendências do desenvolvimento em breve irão desviá-lo desse comparativo equilíbrio, enquanto ele for abrindo caminho para níveis mais altos de maturidade.
Fonte: GESSEL, Arnold. A criança do 0 aos 5 anos. 6.ed. São Paulo: Martins Fontes, 2003.
GESSEL, Arnold, A criança dos 5 aos 10 anos. 3.ed. São Paulo: Martins Fontes, 1998.