quinta-feira, 12 de agosto de 2010

SEM PESO NEM MEDIDA

"Eduquemos os adultos de hoje, e teremos as crianças do amanhã"
(Pitágoras)

O pediatra dos meus filhos estava desconsolado. Comentava comigo que o maior problema enfrentado no consultório ultimamente era a permissividade dos pais. “As crianças dormem tarde, mandam na casa, os pais não têm tempo para viver a vida a dois, os meninos perdem horas importantes de desenvolvimento”.
Com certeza ele sabe do que fala. Tenho uma amiga que reclama não ter mais controle sobre o controle remoto: “A gente não consegue ver mais nenhum filme. São dez da noite e ela ainda acordada”. Informação importante: a filha da minha amiga acabou de completar três anos. Três anos e tiranizando os pais. Que fenômeno maluco é esse que roubou a autoridade dos mais velhos?
De uns anos pra cá parece que papais e mamães tomaram água envenenada com o pó da omissão. Ou terá sido leitura em demasia? “Como criar meninos”, “Como criar meninas”... Excesso de informações criou deseducação, embaralhou o pensamento. Ninguém mais sabe o que é certo ou errado porque tudo pode estar certo e ao mesmo tempo errado. É tanta baboseira psicopedagógica que confunde ao invés de esclarecer.
Outro dia a professora do meu filho mais novo mandou um bilhetinho na agenda comunicando que ele estava indisciplinado. Eu respondi: “Coloca de castigo! Essa indisciplina não é falta de aperto do lado de cá. Rômulo tem gênio transgressor e precisa de limites bem estabelecidos. Aqui em casa a gente está sempre em cima, etc. e tal.”
Ela respondeu de volta que a escola não permite colocar a criança de castigo. Mas o que é isso? Se a professora não pode exercer sua autoridade e fazer o menino ficar sentado refletindo um pouco sobre o que fez de errado, onde é que estamos? Sei que muitos pais vão ficar de cabelo em pé com a minha opinião, mas não acho que chinelada no bumbum faz alguém virar marginal. O excesso de mimos sim. É melhor pecar pela austeridade do que pela mãozinha na cabeça.
Agora tem projeto de lei para proibir a palmada. Sei que a intenção é coibir agressões, espancamentos. Mas essa história pode sair pela culatra, aumentando ainda mais a tirania da gurizada sobre a família e os professores... E todos os dias assistimos aos maus exemplos do que é feito em casa gerar consequências graves na comunidade: é o jovem que atropela, mata e foge. Detalhe: o pai leva o carro para ser consertado na tentativa de acobertar o crime.
É garoto de classe média espancando doméstica em ponto de ônibus. É menino “de boa família” incendiando índio ou moradores de rua. É menina arrebentando a cabeça da outra com barra de ferro.... O que aconteceu com o bom e velho “te pego lá fora?”. Essa ameaça, comum na agressividade natural de crianças e adolescentes, no máximo se traduzia em uma porradinha sem grandes desdobramentos. Puxões de cabelo daqui e dali, rasteiras, soquinhos. Agora as desavenças estão sendo resolvidas à faca, a tiro, a gangues que trucidam.
Fui criança. Levei surras que não me deixaram marcas emocionais ou físicas, pois nem me recordo delas. A ausência da minha mãe em uma única reunião ou festinha do colégio foi mais sentida. Lembro também que me envolvi em algumas brigas. Aos nove anos, bati em Catarina porque ela mentia demais. E olha que naquela época não havia redes de relacionamento capazes de devastar a vida de alguém. Ou seja, aumentou, sim, a responsabilidade dos pais.
Estarrecida assisti a uma reportagem sobre vício em videogames recheada de inacreditáveis testemunhos de pais: “eu não consegui tirar ele do computador porque ele gritava comigo, ficou agressivo”. Que declaração é essa? Os pais se esqueceram quem é que manda? Quem é o dono da grana que compra o computador e as horas de internet? Acho que criança em casa virou déspota esclarecido nas artimanhas de tudo ter e nada ser.
Chocada também presenciei mães e pais levarem meninos e meninas na faixa de oito anos para ver o filme “Predadores” no cinema. Como mães zelosas e pais corujas agem dessa maneira? O filme é de uma violência perturbadora. Em cada cena me incomodava saber que havia uma criança ali na frente deglutindo tudo aquilo. Outro detalhe: era a última sessão do dia, ou seja, crianças pequenas dormindo pra lá da meia-noite...
Às vezes me dá um medo muito grande da futura turma de conhecidos, amigos e afins dos meus filhos...Os tipos de monstros que eles vão conviver lá fora me aflige. Cabe a nós, somente a nós, papais e mamães, mudar a máxima do quem tudo quer tudo pode. E tem de ser pra já!

Fonte: LUCIANA ASSUNÇÃO (*)
(*) Jornalista e publicitária.

3 comentários:

  1. Cristina Junqueira12 de agosto de 2010 11:26

    Muito bom o post de hoje! Concordo plenamente com as opiniões e preocupações de Luciana. Sou mãe de 2 filhos ainda pequenos, de 2 anos e 8 meses e outra de 5 meses, mas a preocupação com a educação, limites e valores começa desde o momento do nascimento, se não for antes.
    Com certeza, vale a leitura e a reflexão.
    Um abraço,
    Cristina J.

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  2. Conheci seu blog hoje, indicação de outro blog. Estou devorando tudo!!! Muito bom!!!
    Bom conhecer pessoas com idéias parecidas!!!
    Parabéns pelo blog!!!

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  3. Obrigada Nadja, sempre busquei informação sobre assuntos relacionados à crianças e resolvi fazer esse blog para poder compartilhar essas informações. Mande pra gente qualquer dica que seja legal e pertinente ao mundo infantil. Adoro conhecer novos blogs também.

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